30 de abril de 2013

Não confie: Garota Exemplar, de Gillian Flynn


Com um realismo assustador, Garota Exemplar garante seu lugar entre os melhores thrillers psicológicos de todos os tempo.

É no dia do quinto aniversário de casamento de Nick e Amy que a vida dos dois muda para sempre. Nick acorda com sua mulher preparando crepes para o café-da-manhã dos dois, tudo pare estar perfeito. Mais do que perfeito, para falar a verdade, já que o casamento dos dois não anda nos melhores trilhos, ultimamente. Então, por volta do meio-dia, quando Nick já está trabalhando em seu bar, ele recebe uma ligação de seu vizinho avisando que sua casa estava com a porta aberta. O que não era uma novidade, já que o vizinho sempre o ligava para avisar que algo estava errado com sua casa. Mesmo assim, decide verificar, e fica mais surpreso diante do inesperado.


Amy desapareceu. Simplesmente, deixando apenas um vaso quebrado e uma sala bagunçada levemente suspeita. Nick aciona a polícia e são iniciadas as investigações. É preciso de total colaboração dele, mas como ele pode ajudar se nem ao menos lembra de detalhes de seus últimos dias com a esposa? Com a falta de suspeitos, Nick é colocado no centro da investigação, por mais que jure ser inocente. Mas até que ponto seria ele inocente neste mistério?


Ao me deparar logo de cara com esse livro, já penso em uma coisa: o enredo não é um dos mais originais. Sim, cansamos de ver histórias com a mesma premissa em outros livros, em filmes, e naqueles programas policiais bastante duvidosos. Portanto, digo que se dependesse de sua premissa, não teria pego o livro tão rápido para ler. O que realmente me deixou curioso foi uma coisa só: o enorme alarde em volta desse livro. Várias semanas em primeiro lugar na lista dos mais vendidos, superando a infame trilogia best-seller "Cinquenta tons de cinza", o livro caiu na boca de todos, com críticas excelentes, chegando a ser considerado como o melhor livro de 2012 por vários veículos do meio literário americano. A curiosidade tava tanta, que tive que me segurar para não pegá-lo para ler sem terminar o outro livro que estava lendo.

A primeira coisa que me encanta logo de cara é a escrita da autora. Ela é perspicaz, abrangente e bastante reflexiva, sempre tomando referências do passado das personagens e outras próprias. O problema é que esse tamanho talento de manipular tão bem uma narrativa torna-se algo um tanto forçado depois de um tempo. Fiquei constantemente pensando em como aquilo tudo era tão artificial, e ao mesmo tempo tão realista, o que me incomodou um pouco. Ora, como pode algo ser artificial e realista ao mesmo tempo? Mas, após algumas páginas, o excesso de floreamentos da narrativa dá uma bela amenizada e aí sim, meu amigo, entrei na história por completo.


O realismo passa a ser tremendo. Somos usados pela autora durante a leitura, sem dó, nem piedade. Uma hora sentimos empatia por um personagem, na outra tudo o que pensávamos sobre ele é levado ao pó, e ficamos completamente à deriva e boquiabertos. Perdi a conta de quantas guinadas essa história deu. Apesar de conseguir prever algumas coisas com uma certa antecedência, a autora surpreende com um final inesperado. Confesso que até agora estou matutando sobre todo o livro, e respirando fundo só em lembrar dos personagens.

Como disse, a autora nos faz de gato e sapato. Os capítulos são alternados entre a visão de Nick no presente, e a visão de Amy no passado, através de seus diários. Então, a cada capítulo é inevitável mudar de opinião. Somos apresentados a detalhes - ou à falta deles - através dos olhos dos dois, e posso dizer que não é difícil simpatizar com um dos dois no começo. Depois, tudo fica tão obscuro para o leitor, que de tanto pensar em quem apoiar, e com as constantes bombas que a autora vai soltando no decorrer da história, a única saída válida e ficar angustiado, sem ter um lado certo em que ficar. Isso porque todos os personagens, não só os protagonistas, são construídos e desconstruídos bem na frente da nossa cara, de uma forma quase maquiavélica.


Se você não é fã de sentir aquele frio na barriga por um história, ou um desconforto estranho e específico por causa de uma narrativa, esse livro certamente não é para você. Garota Exemplar foi escrito para incomodar o leitor, tocar na ferida, brincar com ela, até abri-la por completo. Em momento algum recebemos um afago na cabeça, algo que nos dê uma garantia de que até o final do livro tudo se resolva. Ao invés, somos agraciados com uma trama cheia de segredos e mentiras, ao ponto de não saber mais diferir a realidade do inventado.

Eu poderia terminar essa resenha de várias maneiras, mas vou ser o mais honesto possível: não conseguiria transparecer suficientemente o quão grande é a trama desse livro. Garota Exemplar não é um thriller qualquer, é um tapa na cara. É um livro sobre amor, perda, ego, obsessão, divergências e levanta uma dúvida cruel: será que realmente conhecemos as pessoas ao nosso redor? Não tem nem como eu não recomendar esse livro. É muito mais do que o suspense, é a visão sobre as personalidades dos seres humanos e do que elas são capazes.


Título Original: Gone Girl
Autor: Gillian Flynn
Tradução: Alexandre Martins
Editora: Intrínseca
Ano: 2013
ISBN: 9788580572902
Nº de Páginas: 448
Onde Comprar: Livraria Saraiva/Submarino/Book Depository (Em Inglês)

Mateus Bandeira - @mateusbnd. 18 anos. Estudante de Cinema e Audiovisual na UFC e criador do Padoka. Apaixonado por cinema, música e literatura, espera algum dia viver de alguma dessas coisas - ou de todas elas. Sucker de cultura pop.

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