17 de agosto de 2013

Pagando pela língua: Spring Breakers - Garotas Perigosas (2013)


Pode não ser a mais inteligente das atitudes, mas tenho o velho costume de julgar algumas coisas antes de conhecê-las. Já fiz tanto isso com livros, bandas e filmes que parei de me sentir culpado, talvez porque, na maioria das vezes, eu estava certo. Quase sempre esse preconceito me faz manter uma certa distância de determinadas coisas, não por querer, mas por indiferença - ou quase isso. Mas o meu caso com Spring Breakers é mais uma irritação misturada com curiosidade. Lembro quando começaram a sair as primeiras imagens do filme há um bom tempo atrás, e muita gente começou a surtar porque wow ícones "Disney" como Vanessa Hudgens e Selena Gomez interpretando meninas más, e somente de biquíni! Não sou muito chegado à essas garotas pop, mas até eu senti uma leve curiosidade pra ver o resultado disso, que eu jurava que seria desastroso.


A história do filme gira em torno de quatro amigas de infância: Faith (Selena Gomez), Candy (Vanessa Hudgens), Brit (Ashley Benson), e Cotty (Rachel Korine). As férias de primavera chegaram, e tudo o que elas querem é viajar para o lugar mais longe possível, e possam passar dias em festa, bebedeira e curtição. Como o dinheiro não é suficiente, elas decidem assaltar um restaurante próximo ao campus e, com sucesso, conseguem dinheiro mais do que suficiente para bancar uma viagem. Chegando lá, encontram tudo o que procuravam: festas, bebidas, drogas e pessoas. Era a fuga perfeita de suas realidades, e nada poderia estragar aqueles dias. 

Porém, como era de se esperar, em uma das festas a polícia aparece e prende vários integrantes da festa por porte ilegal de drogas, desordem, e outras coisas: incluindo nossas amigas de infância. Entre o desespero de não ter como sair até mais um ou três dias na cadeia (não lembro bem), ou pagar a fiança, o que é fora de cogitação, pois o dinheiro já era. Então, são surpreendidas quando Alien (James Franco), um gangster excêntrico paga a fiança e as libera, mas não de graça. Logo, as amigas realizam seus desejos de estar em uma realidade completamente diferente das suas quando são envolvidas pelo mundo de luxo, dinheiro e crime de Alien, mas a que preço?


Primeiramente, tenho que dizer: quase que paro de assistir o filme. Claro, estava esperando um filme completamente comercial, sem um ponto de verdade, e quem me conhece sabe o quanto esse tema de jovens sem limites e epifanias me atrai. Mas o inicio é tão cheio de efeitos e cenas dispensáveis (para o filme comercial que eu achava que seria), que quase, quase fui dormir. A única coisa que me fez continuar foi o meu principio de poder falar mal de algo porque o li/ouvi/vi todo, então decidi continuar com o filme.

Após esses tais minutos iniciais, o filme melhora muito. Tudo bem que a superficialidade não vai embora tão cedo, mas ela vai ficando mais amena com o passar das cenas. As cenas de festas foram um pouco tediosas, mas até necessárias pra mostrar todo o espírito da coisa e a própria visão das personagens principais. Temos até devaneios de algumas personagens, e é justamente daquele certo ponto em que o filme passa a focar nos personagens, trocando o superficial por algo mais pessoal e interessante. Até aí tudo beleza, o filme tá tranquilo, nada acontece de tão chocante.

Até que Alien entra na história.


Sabe quando você tem um pressentimento estranho de que, em algum momento, uma coisa muito ruim vai acontecer e dar em merda? Então, foi essa sensação que me acompanhou até o final de Spring Breakers. A aura toda do filme muda completamente quando Alien aparece para o resgate das garotas, apagando todo o clima de ousadia e alegria felicidade que o filme tinha. A partir daí, você já pode sacar qual é a do filme de verdade, e é justamente aí em que percebemos também que o filme não tem a menor intenção de ser comercial, justamente porque as atrizes já vendem o filme mais do que suficientemente bem. A única e exclusiva função do filme é chocar.

Uma vez com isso na cabeça, você passa a ver o filme com outros olhos. Você passa a temer pelos personagens e suas escolhas de índole duvidosa, chegando até a prender a respiração em alguns momentos de nervosismo. Tudo vai mudando gradualmente, e vamos conhecendo, inclusive, novas facetas das garotas. O engraçado, é que depois que terminei o filme, e descobri que ele é de Harmoni Korine, tudo fez sentido. Para quem não conhece, outro filme dele é Kids, com a mesma temática de adolescentes sem limites, e é consagrado desde então por ele.


Posso dizer tranquilamente que atuação não é um problema nesse filme, e foi um dos fatores que mais me preocuparam, na verdade. Cada personagem é interpretado de maneira brilhante, e convincente o suficiente. Vou até dar um certo destaque para a Vanessa Hudgens e a Ashley Benson, por terem conseguido me convencer que de boas suas personagens não tem nada.

O roteiro peca com falta de consistência, deixando diálogos um tanto vagos, mas que dá uma vazão absurda pra sequência de cenas se desenvolverem de uma maneira ainda mais chocante do que é para ser. A fotografia é cheia de exageros. Aliás, o filme todo é um exagero em si da própria realidade, mas grande parte disso se deve a fotografia sombria e apática, que faz até os momentos mais claros do filme tomarem uma certa máscara de naturalidade e morbidez.

O que mais me chocou, de verdade, foi a trilha sonora. Por se tratar de um filme de praia, sol, "diversão" e jovens, ela foca justamente em hits consagrados do pop, como Skrillex e batidas eletrônicas. Mas, ao mesmo tempo, a trilha sonora rouba completamente o filme. Várias vezes ela entra em contraste com cenas fortes, tornando tudo mais mórbido e cruel. Duas cenas do filme me pegaram de surpresa e me deixaram com cara de bobo: uma sequência absurda onde Alien toca Everytime de Britney Spears no piano, e acompanhando isso, uma cena de assalto a uma casa. A outra cena foi a sequência final do filme, que é um pouco previsível, mas não o suficiente pra tirar a surpresa da situação. E o filme termina com a música mais mórbida de todos os tempos (que não direi qual é, para não estragar a surpresa), porque a letra da música literalmente descreve toda a mensagem que o filme quer passar, mas ao mesmo tempo contrasta com o filme inteiro. Se isso não é o máximo, eu não sei mais o que é.


Mais do que chocar, o filme passa uma mensagem bastante subliminar sobre a perda da real inocência, e seu retorno. Por ser extremamente implícito, é fácil confundir e achar que o filme é só sobre festas, drogas e violência, e com o intuito de influenciar, bem, pessoas influenciáveis (as mesmas que querem ter uma vida igual a dos personagens do seriado Skins). Adorei ter ficado surpreso com esse filme, e ter dado um tiro em meu próprio pé ao achar que esse seria só mais um filme pra forçar garotas Disney a deixar a imagem de boazinhas para trás. Recomendo pra quem procura algo bem diferente do usual. Não é o filme mais fantástico do mundo, mas vale a pena dar uma boa conferida.

Mateus Bandeira - @mateusbnd. 18 anos. Estudante de Cinema e Audiovisual na UFC e criador do Padoka. Apaixonado por cinema, música e literatura, espera algum dia viver de alguma dessas coisas - ou de todas elas. Sucker de cultura pop.

Nenhum comentário :

Postar um comentário

E então, o que achou do post? Comente aqui!